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Posted by Lalai on Mar 8, '05 2:15 PM for everyone
Li este texto escrito pelo Zuenir Ventura hoje no No Mínimo. Como super puxa saco da minha cidade, eu adorei. Claro que não concordo que São Paulo esteja mais para Jardim Europa do que Jardim Angela. Assim como há zonas bacanudas, há a nossa periferia, mas que nem sempre fica tão à vista de quem está aqui apenas de passagem.

Quanto aos elevadores, eles ainda não lêem nossos pensamentos, mas tem velocidade inacreditável, eu mal apertei o botão e lá estou no andar desejado. Para mim o único problema é enfrentar o trânsito.

Deleitem-se com o texto e para os não muito fãs da cidade, desabem suas lamúrias:

Há algum tempo eu não ia a São Paulo, a não ser para voltar no mesmo dia. Dessa vez fiquei de sexta a domingo e tive a sensação de que estava em outro país – com a vantagem de que entendia quase tudo o que o motorista de táxi falava (é bem verdade que fui já sabendo o que era balada, pagar pau e xaveco). Falei em “sensação”? É de fato outro país, nadando em dinheiro. Antes de continuar exaltando “a força da grana que ergue e destrói coisas belas”, cantada por Caetano, aviso que estou me referindo, claro, à cidade que está mais perto de Nova York do que do Terceiro Mundo, mais para Jardim Europa do que para Jardim Ângela, não é a do “povo oprimido nas filas, nas vilas, favelas”.

Acho que fiquei assim impressionado porque conheci – conheci, maneira de dizer, pois passei de carro – a Berrini (Avenida Luis Carlos Berrini), que não sei se chamo de região, de bairro ou de nova cidade, um gigantesco complexo arquitetônico que me lembrou Chicago, talvez pela predominância da arquitetura pós-moderna. Que imponência! Que opulência! Os prédios iam desfilando: Microsoft, Bank Boston, Nestlé, Philips, Unibanco, Hotel Hilton, World Trade Center. São todos edifícios inteligentes, alguém me informa, parece que tão inteligentes que a gente se sente burro dentro deles. Não consegue fazer nada para que tudo seja feito. Você se posta, por exemplo, diante do elevador e pensa: “Eu gostaria de ir ao 9º andar”. Ele não diz nada. Pega-o e leva até lá, sem precisar apertar botão. Não deve ser assim, mas foi como entendi a descrição.

Até Artur Xexéo, que encontrei lá, dá demonstrações de rendição à vitalidade dessa “estranha cidade ao sul do Equador”, como sempre a chamou. Há de um tudo em matéria de cinema, teatro, show, restaurante, comércio em geral. O problema é que há também gente demais: superabundância de oferta e procura. Não consegui ingresso para ver Marília Pêra, quase não encontramos lugar para jantar, de tão cheios estavam os restaurantes (sábado), e só pudemos ver “Avenida Dropsie”, de Will Eisner, um genial autor de histórias em quadrinhos americano, por interferência de amigos.

Ainda bem. Há muito tempo não via um espetáculo tão interessante e original. O diretor faz até chover. De verdade. Durante 15 minutos desaba no palco uma chuva que julguei ser efeito visual, até ver os guardas-chuva e atores molhados. Incrível. Mas o melhor não é nem isso – é a cenografia de Daniela Thomas, é a interpretação de oito atores que parecem 16, é a trilha sonora, é a luz. E é sobretudo a direção de Felipe Hirsch, que consegue levar para o palco, usando a estética fragmentada dos comics, o que Eisner tem de melhor: pequenos dramas e comédias da vida dos judeus no Bronx, em Nova York.

Depois fomos jantar (o almoço, que durou uma tarde inteira, tinha sido com Márcia e Ricardo Setti, com direito na sobremesa a Marina e Fernando Morais). Somos quatro moradores do Rio e uma carioca que mora em São Paulo há dez anos. Sua filha está com 17 e se adaptou tão bem à cidade que não tem saudades nem da praia. Ao contrário, adora ser branca como se nunca tivesse apanhado sol. A mãe teve um difícil começo, mas hoje também adora viver lá. Com exceção do trânsito, que não anda, tudo funciona. O restaurante está, pra variar, superlotado, e ficamos lamentando a decadência do nosso Rio de Janeiro, esperando mais de meia hora na fila. Enquanto isso, a filial carioca daquela mesma casa está fechando cedo por causa do medo da violência.

O que fazer, mudar para Sampa? Não. O sonho dourado de consumo foi descoberto primeiro por Roberto Duailibi e agora, mais recentemente, por Washington Olivetto (esses publicitários sabem viver): eles conseguem morar nas duas cidades, tendo em ambas casa, amigos, contas e interesses profissionais. Está chato aqui? Pegam o avião e vão para ali. Como não tenho agência, fico sonhando modestamente com o dia em que haverá um trem que, a preços módicos, nos leve de uma cidade a outra em duas horas. Como em qualquer país civilizado.


georgezix wrote on Mar 8, '05
lalai said
Assim como há zonas bacanudas, há a nossa periferia
Como eu vc deve saber que existem varias sao paulos dentro dessa sao paulo, e as melhores dela sao tbm muito inacessiveis.......em varios sentidos.Mas sempre vale o destaque na nossa NY de terceiro mundo com muito orgulho , ou a nossa NY abaixo do equador.

Zix
leonardocerqueira wrote on Mar 8, '05, edited on Mar 8, '05
Sampa, por um lado, é uma metrópole com toda a imponência e grandiosidade. Ela cresce em torno si própria e se faz única no nosso país. Ao contrário da maioria das cidades do Brasil, ela não têm praias ou um clima de araras e natureza (para ver esses tipos de coisa, é preciso sair da cidade e encontrar tudo isso numa cidade vizinha). O grande problema de São Paulo, na minha opnião, são as grande muralhas invisíveis que separam classes, etnias, pessoas... enquanto as jovens "caucasianas" brincam de The Edge num lado da cidade, no outro seu Juvenal (nordestino) pega no batente pra alimentar seus 10 filhos. Ao contrário de Salvador, Sampa não tem um clima provinciano - pessoas vivem anônimas nas suas vidas privadas e possuem pequenos grupos fechados de relacionamento e integração. O que eu acho mais interessante em Sampa é que tem tudo em todo lugar, não é difícil encontrar o que precisa. Portanto, eu digo que concordo em partes com o texto... eheheheh.

Bjus gatona!

Leo
leandro69 wrote on Mar 9, '05
Linda homenagem, principalmente vinda de um carioca.

Nossa cidade é assim mesmo, né Lalai? Terra de contrastes: a miséria e a opulência, a segurança e a violência, o calor do efeito estufa e o gelo do ar refrigerado, sol e chuva, o horrível e o maravilhoso, tudo convivendo junto, em caos harmônico - e talvez sejam estes contrastes os responsáveis por a tornarem tão única. Num mesmo dia você se sente em Tokio, Nova York, Chigago, Londres, Nápoles... ou Nairóbi.

É assim. São Paulo, sim ou nãoplesmente.
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